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Leite com mel


Ele diz que não importa se ela gosta da pescada cozida e ele a prefere frita, contando que comam da mesma pescada.
E perfeito perfeito, seria se ele preferir pernas e ela o peito. O segredo para a perfeição.


Soneto de chá

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

Tentei fugir da mancha mais escura, David Mourão Ferreira

Chá das cinco, com leite

Sentámo-nos ao lado um do outro. Não sabíamos.
Hoje cheiramos a casa de antiguidades e a pechisbeques em segunda mão. Por cima do lábio castanho, não rosa, a pele não é seda e não tem força para aguentar um belo bigode, barba e mosca. Já não consigo apanhar o cabelo com as mãos. Branco não condiz com longo e o corpo já não cabe dentro de uma garrafa de coca-cola.
Elas estão ali, na cozinha. Ele não sei onde anda, nunca soube bem que ele é como nós. Às vezes parece que ainda estão todos cá dentro, ao mesmo tempo, com nome e sem forma.
Temos a janela grande. A da sala. Tantas vezes apagámos a luz só para a ver ou para ela nos ver a nós. Era sempre ela que acabava a ver.
Temos ainda tanto tempo.

Chá Verde

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.
Nuno Júdice - «Até ao fim»
Verde, como a capa do livro